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Cotidiana Brasilis
Desde: 09/03/2019      Publicadas: 6      Atualização: 27/03/2019

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 Sociedade

  19/03/2019
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Flores Esmagadas

Como os casos de violência contra a mulher no país têm alcançado proporções cada vez mais alarmantes e a inadimplência da sociedade em tratar a raiz do problema no desenvolvimento de homens mais esclarecidos.

Não é de hoje que as mulheres são tratadas por muitos como servas dos interesses masculinos no âmbito global, mas a questão é que justamente por isso a sociedade como um todo não alcança um nível de civilidade que poderia tornar o convívio humano mais pacífico e harmonioso em todos os seus setores. Claro, homens também são mal tratados e abusados por determinadas mulheres, mas a escala é tão menor em proporção que sugere mais uma influência por parte da violência masculina do que o contrário.

 

De acordo com o Sistema de Informações sobre Mortalidade ou SIM, morrem ao ano cerca de 4.500 mulheres por homicídio no Brasil, mas, de acordo com uma pesquisa feita em 2013 pela Dr Heidi Stöckl, PhD em Intervenção Social Baseada em Evidências pela Universidade de Oxford, aproximadamente 40% dos homicídios de mulheres no mundo inteiro são causadas pelo parceiro íntimo, em contraste com a média de 6% dos homens que morrem pela mesma causa, chegando a ser então 6 vezes menos que as mulheres, e ainda que a taxa de homicídios masculinos englobe cerca de 90% do total no Brasil anualmente, vale ressaltar que essas mortes em sua grande maioria também são causadas por outros homens, ademais, quando consideramos o número de mulheres que são violentadas sem resultar na morte delas o quadro fica ainda mais desproporcional.

 

No Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2017, mesmo com a lei Maria da Penha em vigor, foram registrados cerca de 62 mil casos de estupros, número quase idêntico ao valor total de homicídios no mesmo ano que chegou a 63 mil, em adição foram enumerados cerca de 220 mil registros de violência doméstica contra a mulher, sendo 606 casos em média por dia, e a situação não tem melhorado, só na primeira semana de 2019 ocorreram pelo menos 21 casos de feminicídio. Com tantos atos violentos voltados contra a mulher, independente de serem tratados como crimes hediondos desde 2015 no país, só nos restou então procurar a motivação de seus executores, muito do que pode ser explicado a respeito provém de certas denominações psicológicas que serão examinadas no decorrer deste artigo.

 

O Medo do Feminino é o que parece ser a real causa da violência contra mulher, mesmo que em muitos casos tal violência tenha sido uma questão cultural, por meio de tradições traumáticas dentro da própria família passadas de pai pra filho, tal medo também se encontra como origem deste segmento do patriarcado, segundo a psicóloga Vanilde Gerolim Portillo “o medo do Feminino é visivelmente observado na violência do homem em relação à mulher. Não conseguindo relacionar-se com o seu Feminino interno, sua anima, porque está bloqueada pelo medo enraizado nas entranhas do complexo materno, ataca a mulher como defesa. É o poder em detrimento do amor, porque onde domina o poder não há espaço para o amor.”, ainda para explicar melhor ela diz que “o complexo materno, que é a idéia de mãe carregada de afetividade, existe em todos nós. O experimentamos como a necessidade de carinho, proteção e ligação. Se a experiência inicial que temos na vida, através da relação primal, for satisfatória e atender estas necessidades sentiremos que a vida é algo bom e que seremos amados e protegidos sempre. Se a nossa primeira experiência não foi boa, vamos nos sentir desligados de tudo e sem raízes.”.

 

Tal complexo está diretamente relacionado à parte feminina do inconsciente no ser humano como um todo, que pode ser chamado de Anima, esta feminilidade, assim como a masculinidade, se encontra em todos nós e aqueles que a reprimem passam a sofrer distúrbios psicológicos, entre estes distúrbios pode estar presente a predisposição em ser agressivo com as mulheres, pois o feminino reprimido dentro de si faz com que a mulher se torne algo desconhecido perante eles e somando isto com o medo do desconhecido temos o medo do feminino, considerando que o medo gera a raiva como mecanismo de defesa, o homem atormentado por tal distúrbio tende a querer dominar aquilo que teme, mesmo que de forma agressiva e, neste caso infeliz, procura dominar a mulher por meio de violência, sendo muito provável que este tipo de comportamento ocasionou na criação do patriarcado que vivemos hoje, onde o homem, imerso em imaturidade oriunda de sua auto-repressão, tenta controlar a socidade por temer tanto as mulheres como os homens de verdade, de acordo com a psicóloga Raissa Cavalcanti “a feminilidade passa a ser definida como submissão, castidade, fidelidade, obediência, sacrifício (...) Transfigura-se para a mulher tudo o que ameaça a ordem patriarcal e o lugar do homem como senhor absoluto”.

 

Voltando ao complexo materno, o psicólogo Carl Jung relata que “assim como o pai protege o filho contra os perigos do mundo externo, representando um modelo da persona, a mãe é a protetora contra os perigos que o ameaçam do fundo obscuro da alma. (...) O homem moderno civilizado terá que sentir forçosamente a falta desta medida educacional que, apesar de seu primitivismo, é excelente. A conseqüência desta lacuna é que a ânima, sob a forma da imago materna, é transferida para a mulher. Depois do casamento, é comum o homem tornar-se infantil, sentimental, dependente e mesmo subserviente; em outros casos, torna-se tirânico, hipersensível, constantemente preocupado como prestígio de sua masculinidade superior.” e, segundo a pesquisadora e psicóloga Denise Ramos Soares, “não parece aleatório que grande parte dos homens que violentam suas parceiras venham de lares desajustados e condições de vida precária para a educação de uma criança. O peso da anima se torna incomensurável para a consciência, por fazer referência a essas questões paradigmáticas do passado com a própria mãe e o homem tende a deslocá-la para a sombra, a fim de não ter de lidar com esse assunto diretamente. Ocorre que, uma vez na sombra o poder de inflação do inconsciente tende a crescer se do meio externo advém o chamado daquele conteúdo psíquico e, quanto menor for a capacidade de lidar conscientemente com essa demanda, mais o homem tenderá a projetá-la e reagir a ela como se fosse uma ameaça externa. Eis que ganha ato a violência física contra a mulher.”, ela diz ainda que “isso ocorre porque a imagem da mãe é projetada na companheira por meio de uma identificação com a anima, um conjunto de características psicológicas femininas, reunidas na psique do homem, que se forma no contato com o complexo materno, essa imagem surge da interação entre a influência dessa mãe e as reações geradas na criança. A anima será positiva ou negativa conforme tenha sido a relação desse homem com sua mãe. Uma mãe presente e que forneça exemplo de amor, mas que permita autonomia, imprime a imagem de uma anima positiva, o que levará seu filho a desenvolver formas benéficas de se relacionar com o sexo oposto e com a dimensão afetiva de sua vida, mas se a mãe, por seu excesso de zelo, sufoca a autonomia do filho, tornando-o submisso e incapaz de tomar decisões por ele mesmo, ou se, ao contrário, deprecia e humilha a cria, imprime uma anima negativa, que dirá constantemente que ele nada pode e que é fraco ou mau.”

 

Não assumo com isso que a culpa dos homens extremamente agressivos resida unicamente em suas mães ou responsáveis durante sua tenra idade, pois o que define o caráter de alguém não são as atribulações que ele passa, mas como ele reage à estas atribulações, ou seja, no final das contas é sempre a pessoa que toma a decisão final no rumo de sua vida, mas quando somamos estes casos de lares quebrados com o fator da própria sociedade propagar um cultura onde o homem mais sensível é tido como disprovido de sua masculinidade, podemos ver como essa auto-repressão é estimulada coletivamente, piorando ainda mais o caso.

 

É necessário então esclarecer a sociedade como a auto-repressão masculina traz graves consequências na vida em sociedade e o quanto a mulher sofre com isto, deve se haver um embate social para desconstruir essa ideia de que a feminilidade presente no homem não é digna de sua masculinidade e que, pelo contrário, só tende a fortalecê-la, quanto mais cedo isto for feito, mais cedo essa violência contra as mulheres poderá acabar.

 

 

 

 

 

 

 

 

Fontes:

 

http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/130925_sum_estudo_feminicidio_leilagarcia.pdf

http://www.senado.gov.br/institucional/datasenado/omv/indicadores/indicadores.html

http://www.forumseguranca.org.br/atividades/anuario/

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23791474

https://www.lshtm.ac.uk/aboutus/people/stockl.heidi

https://www.brasildefato.com.br/2019/01/08/pelo-menos-21-casos-de-feminicidios-ocorreram-na-primeira-semana-de-2019/

http://www.portaldomarketing.com.br/Artigos_Psicologia/Complexo_materno_nao_resolvido.htm

http://estudosculturais.com/congressos/vcongresso/wp-content/uploads/2016/09/quem-bate-considera%C3%A7%C3%B5es-acerca-da-viol%C3%AAncia-dom%C3%A9stica-e-familiar-contra-a-mulher.pdf

https://psibr.com.br/colunas/mathias-glens/o-que-torna-um-homem-autor-de-violencia-contra-a-mulher

 

  Autor: Caio S. Duarte


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